quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Mademoiselle: Jeanne Moreau em chamas



Aos que não viram o filme: este post contém spoilers



"Margo, eu vivi no teatro como um monge vive na sua fé; esperando o momento da revelação. Você foi um..." Esta frase do personagem de George Sanders em A Malvada pode resumir o meu sentimento por Mademoiselle, filme de Tony Richardson. Vejo um monte de filmes, de vez em quando um atrás do outro. Mas aquele aperto no coração, sentir o estômago ir à boca... isso acontece pouco. Após o término de Mademoiselle, quer dizer, antes eu já estava mandando uma mensagem para um amigo, do tipo: VOCÊ PRECISA VER ESSE FILME! Por isso, não posso esperar um minuto a mais para escrever minhas impressões sobre ele. 

Retomando a metáfora do monge, eu não esperava que nenhum filme da Jeanne Moreau pudesse ser tão bom como Os Amantes. Não, nenhum poderia ser tão legal por que não tinha a cena de amor ao som de Brahms, Jeanne de Pierre Cardin e aquela história à la Mme Bovary do século XX. Ok, é a Moreau, ela faz filmes maravilhosos, até agora não vi nenhum ruim. Assisti recentemente La baie des anges e gostei muito. Muito mesmo. Acontece que Mademoiselle conseguiu me levar pra dentro da tela de uma maneira que poucos filmes conseguiram (oi, eu estou me repetindo). A personagem jogadora compulsiva cassineira de La Baie é um nada perto da Mademoiselle do filme homônimo. A Mme Bovary de Os Amantes igualmente. Por mais que elas tenham personalidades similares, a Mademoiselle ganha pela intensidade como a Jeanne consegue refletir a personagem perturbada da professora. MAS vamos pelo começo, né. Afinal, nada disso faz sentido se eu não falar como eu cheguei até Mademoiselle.

Estava relendo um livro sobre a Marilyn... e não fazia sentido lê-lo se eu passava a maior parte do tempo, baixando filmes da Jeanne. Larguei Marilyn pela segunda vez e retomei a biografia da Jeanne. Coincidência ou não, eu parei exatamente na parte onde o autor fala sobre La baie. Avancei alguns anos, passando pelo filme com a B.B (Viva Maria! que está aqui no computador pronto para ser visto) até chegar em 1966, mais precisamente. Comecei a ler sobre um filme chamado Mademoiselle, de um diretor chamado Tony Richardson. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o fato do papel ter sido escolhido pela Jeanne. O diretor, basicamente, largou a escolha da história nas suas mãos, devido ao fato de querer muito trabalhar com essa linda. Ela sugeriu um roteiro do Jean Genet, poeta francês e seu amigo. O diretor aceitou, mas acho que ele sabia que Genet e merda são palavras que rimam. Claro que deu merda, foi mal recebido no festival de Cannes, acusado de grosseria etc. Na época, é BEM compreensível que fosse tachado de "grosseiro". Mademoiselle é o tipo de filme que ganharia fama muitos anos depois de ter sido feito, pelo teor das cenas, consideradas fortes para a época.

O filme conta a história de uma professora (Moreau), que possui a maldade na alma. Simplesmente. A professora é má porque não é do bem e não adianta procurar razões patológicas para seu ódio pelo mundo. Ela o odeia, tout simplement. Ela é frustrada em todos os âmbitos da vida, principalmente o sexual. Quando ela conhece o lenhador italiano (UM COLÍRIO, MINHA GENTE), ela se sente tremendamente atraída por ele. Nesse quesito, a atuação de Jeanne consegue ser esplêndida; cheia de olhares lascívio, que temos a impressão de que a mulher está em chamas.O lenhador tem um filho, que frequenta a escola onde a professora dá aula. O mórbido do filme começa exatamente aí: Jeanne tortura a criança, como forma de sublimar o desejo pelo lenhador. Ela o tortura tanto, que chega um momento em que Bruno (o filho do lenhador) torna-se igual a professora: cheio de maldade no coração. O filme vai andando, numa tensão absurda, onde a gente torce para que a Jeanne pegue logo esse lenhador e arda em chamas na tela (que poético não? NOT). As cenas que aparecem antes do momento clímax do filme também realçam essa tensão sexual. A primeira delas, em que Jeanne observa o lenhador dormir atrás da árvore e passa a língua na boca. Aqui em casa, eu dei um berro alto. De todos os filmes franceses que vi dessa época, nenhum deles explora tanto esse lado animalesco do ser humano como Mademoiselle. Podemos ver o suor escorrendo do lenhador e suas calças levemente abertas, provocando um frisson na professora. Aquele homem realça todo o lado animal da profesora, isso é óbvio para nós depois de assistirmos à cena. A segunda cena: a da cobra. A cena MAIS erótica do cinema francês de todos os tempos. A professora vai passear na floresta e encontra o lenhador. Eles se olham por alguns segundos. O olhar dela vai percorrendo o corpo do lenhador até parar na barriga dele. Parece que ele estava com lombrigas, algo assim. Mas, de repente, ele tira uma COBRA debaixo da camisa. Fala que ela é mansa e pega a mão da Jeanne e faz com que ela acaricie a tal da cobra. MEU DEUS. A maneira como eles se olham e a mensagem subliminar da cobra são coisas que só poderiam sair da cabeça do Genet. SENSACIONAL. Eu cheguei a me arrepiar.

É claro que a cena em que eles finalmente transam é de longe a melhor do filme. Não por transarem. Quer dizer, não é uma simples transa e tchau. O lenhador desperta o lado animalesco da  professora e durante os próximos 15 minutos, é visível isso. O lenhador a trata como um animal, como uma cadela. Existe uma cena até mesmo onde a Jeanne late e o lambe. Além disso, ele cospe nela também. Tudo isso na maior sensualidade, no meio do mato. Bem, é claro que o filme não acabaria assim. Me seguro para não contar o final para vocês, mas o que se pode dizer? Muito bem feito, bem filmado. A Jeanne simplesmente nos faz precisar de uma ducha fria depois de assistir ao filme. Posso dizer que de todos os filmes que vi com ela até agora, esse é o melhor.

Fãs do Haneke, vocês vão adorar esse filme. Ele me lembrou muito "A professora de piano". 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Estupros do cinema e vida real

Todo mundo está falando do tal do estupro no BBB. Bem, o programa não poderia estar mais decadente para deixarem este tipo de coisa acontecer. Já era uma baixaria antes, agora ficou pior. Mas meu post não é exatamente sobre este fato. Conversando com uma amiga, lembramos da cena de estupro que aparece no novo filme do Almodóvar, A Pele Que Habito. O que isso tem a ver? Lembramos do pessoal comentando no filmow que havia achado ENGRAÇADA a cena. Vocês riem de um ESTUPRO? Pelo amor de Deus! O Almodóvar tem certas características; uma delas é o gosto pelo krisch, mas certamente aquela cena não estava lá para ser apreciada como algo trash e engraçado. Na minha cabeça, ninguém deveria achar esse tipo de acontecimento engraçado.

Aí, me pergunto: a mesma laia que riu do estupro no filme também achou engraçado o estupro no programa? O mínimo que a Globo poderia fazer é expulsar o cara. O que mexe comigo é a banalização desse tipo de acontecimento. Como assim rir daquela cena? Foi uma das cenas mais fortes que já vi em um filme. Será que achamos tão normal a ponto de rir e fazer piadas sexistas sobre o tema? Não sei.

Tenho medo, já dizia a Regininha Duarte.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sobre Antoine Doinel e Truffaut


Na verdade, queria escrever sobre La baie des anges, um filme com a Jeanne Moreau que vi ontem. No entanto, por coincidência, cheguei exatamente nesta parte na biografia que estou lendo sobre a mesma. Logo, quero ler antes para depois escrever, já vi que existem informações bem interessantes. No momento, estou de máscara e com minha toalha velha de guerra do Mickey Mouse na cabeça, sem óculos. Não enxergo nada. Melhor, assim eu evito de deletar minhas palavras.

Depois de terminar toda a "série" de Antoine Doinel, senti necessidade de escrever sobre ela. Mas vamos por parte. Quem é Antoine Doinel? Trata-se de um personagem famoso do diretor François Truffaut, aparecendo em cinco filmes, que contam a sua trajetória. Doinel é considerado alter-ego do diretor. O ator que interpretou Antoine, Jean-Pierre Léaud, também é famoso por ter atuado em alguns filmes de Godard e segundo o documentário Truffaut,. Godart e a Nouvelle Vague (é essa a ordem? Nunca sei), é o filho desse movimento. Só que todos esses dados não interessam para esse post. Os que acharam que daqui sairia uma crítica inteligente sobre o filme, se ferraram. Quero apenas contar minha sensação ao terminar de assistir estes cinco filmes.

 (Pausa dramática para ir tirar a máscara do rosto e secar o cabelo...)

Para variar, vi todos os filmes fora de ordem. Comecei pelo final, bem, quase, com Domicílio Conjugal, o penuíltimo filme.Tinha muita curiosidade de ver este filme, já que a foto da cama (Doinel e sua esposa, Christine) é um clássico. Inclusive,a foto que aparece em Alguém tem que ceder, no teatro, no cartaz da peça de Erica Barry é uma reprodução da mesma. Ver os filmes fora de ordem me deu uma sensação muito engraçada. Algo como o Benjamin Button, eu fui vendo Doinel rejuvenescer através dos filmes. Sobre Domicílio Conjugal, o que posso dizer? Gostei muito, principalmente da maneira que exploraram o lado cômico do Léaud (o que iria ser mais evidente em Beijos Proibidos, o filme anterior ao Domicílio). Muitas pessoas acusam o cinema francês de tedioso. Concordo com elas, em parte. Elas dizem isso porque não assistiram aos filmes do Truffaut. Não tem como achar tedioso o Antoine se ferrando por causa da japonesa, com a qual ele trai sua esposa em Domicílio. Não se trata de um sadismo. A maneira como a traição é retratada no final é tão engraçada, mas nada que nos mate de rir. É aquele engraçado de "a situação é tão absurda que não tem como não rir". A vida, no fim, é isso: ou a gente ri, ou chora eternamente. Bem, muitas coisas não faziam sentido ao ver Domicílio, o que era claro, já que eu não tinha visto aos outros filmes. Doinel não me cativou de primeira. Apesar de favoritar o filme, o personagem não havia me ganhado completamente. Foi preciso assistir Os Incompreendidos para entender o frisson. Mentira. Eu nem senti tanto frissom assim, apenas quando a Jeanne Moreau aparece no filme e nos créditos iniciais (Merci infiniment à Mme. Jeanne Moreau, c'est vraiment ça? je crois que non). Os Incompreendidos é sensacional, gostei do filme. Mas faltava algo. Sim, faltava algo. Aí, assisti Antoine Et Colette, o segundo filme, ou curta se preferirem. Muito bom. Ainda faltava algo, mas que droga! Quando eu estava quase desistindo de ser cativada, descubro que o último filme da série está passando no telecine: O amor em fuga. Começo a assistir. AGORA SIM! 

Com O amor em fuga tudo que eu havia assistido antes fizera sentido. Vocês já sentiram aquela sensação maravilhosa de serem cativados por um filme e verem os minutos passarem voando? Pois é. Isso que eu sentia ao ver esse filme. Nele, Doinel reencontra personagens que apareceram em todos os outros filmes, enquanto tem tempo para sofrer (encore et encore) por uma vendedora de discos. Tive a sensação de estar reencontrando um velho amigo, daqueles que não vemos há muito tempo. Para mim, o que ficou, foi uma sensação de nostalgia, pois querendo ou não, aquele Doinel, eu havia conhecido, acompanhado sua vida, desde o momento em que ora para o Balzac até reencontrar Colette na estação de trem. O maior trunfo do Truffaut é nos levar para dentro da tela, para a intimidade do personagem sem que se precise pedir licença. Alguns são todos mimimi pelo Léaud ter ficado marcado por este personagem. Já eu, acho o máximo. Não é qualquer personagem. É um personagem sensível, engraçado, bonito... e sobretudo, real. 

Que reste-t-il de nos amours? Que reste-t-il de ceux bonjour? Une photo, vieuille photo de ma jeunesse... Agora, tenho dois filmes para lembrar quando esta música tocar: Alguém tem que ceder e Beijos Proibidos.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

The Kennedys


Para Camila, que acompanhou a série junto comigo
Quando a série tem história no meio, eu abro uma exceção. O trabalho de um tradutor é grande parte o de um pesquisador, mil janelas no google abertas e na wikipédia também, já que ela é confiável segundo minha professora de tradução. Bem, eu já tinha descoberto a série antes através de minha dinda, que estava doida para assistir, porém nunca conseguiámos pegar a bagaça inteira na tv. Eis que a Camila, uma dessas leitoras lindas do blog, apareceu com o link no facebook. Eu surtei na hora e já sai baixando. 

O que dizer? Os Kennedy são de longe uma das famílias mais interessantes que entraram para a história. Algo como os Borgias do século XX, numa velocidade maior, já que nessa época existia a máfia, as bombas e tudo mais. Pelo que li, The Kennedy's foi uma das séries mais caras produzidas pelo History Channel. Tem razão: as caracterizações dos personagens são DEMAIS DA CONTA e Greg está ótimo como o Kennedy, fisicamente falando. Mas vamos começar pelo começo (dã, Jessica), neste caso, a abertura. Vocês já se sentiram patrióticos? É assim que a abertura do seriado te faz sentir. É incrível como uma música pode nos despertar essas sensações. As imagens mostradas também causam essa sensação, já que mostram momentos decisivos como a crise dos mísseis em Cuba e o assassinato de Kennedy. É incrível como os americanos sabem mexer com esse tipo de coisa e a bandeira dos EUA aparecendo na abertura. Eu quase chorava assistindo a abertura para vocês terem noção. Mais incrível é não ser americana e sentir isso. 

É claro que se tratando de uma série sobre um dos presidentes mais polêmicos do século XX, o pessoal poupou o Kennedy. Continuo achando bullshit, mas tem um propósito: a lenda precisa se manter, after all. É como o próximo filme com a Meryl sobre a Thatcher: vão procurar mostrar o lado humano da primeira ministra, mesmo que ela tenha mandado cortar orelhas nas Ilhas Malvinas. Enfim, é CLARO que não iriam mostrar as sujeiradas da família Kennedy de uma maneira "verdadeira". Ela é mostrada como se o pai de Bobby e do Kennedy tivesse culpa em tudo que aconteceria para frente, já que foi ele que obteve apoio da máfia para se eleger como presidente. Nem tudo foi culpa dele, mas para quem não conhece muito bem, sinto que é essa impressão que dá. Sobre o ator que faz o Kennedy, Greg Kinnear: simplesmente SENSACIONAL. A semelhança física é absurda e a atuação dele também é ótima. Contudo, apesar de atuar bem, ele retrata um Kennedy fraco (fisicamente e psicologicamente falando) e que precisa do irmão Bobby pra limpar as merdas que faz. Bem, é claro que na vida real foi assim de certa forma, mas minha gente e a Baía dos Porcos e a crise dos mísseis em Cuba? Foram atitudes de um homem que sabia bem o que estava fazendo. 

E o que ator que colocaram para fazer o Sinatrão? MAS VÃO SE DAR O RESPEITO! Um homem daquela influência que foi o Sinatra, colocar um ator que não lembrava nem um pouco o verdadeiro blue eyes é triste. Não precisava ser idêntico. Precisava ter a pinta Sinatrão. E isso ele não tinha mesmo. Poxa, o homem só aparece em dois episódios e vocês fazem isso com ele? The blue eyes are back... WHERE?  Acabaram com a Marilyn Monroe também. Infelizmente, nessas séries, como escolhem um único ponto de vista, algumas pessoas acabam prejudicadas. Marilyn foi uma delas. Retrataram-na como uma ninfomaniáca, que perseguia a família Kennedy. O happy birthday mr president NEM foi considerado. Achei a atriz muito fraca também. Essa é a pior porcaria dessas séries e filmes que contam a história de ídolos nossos: nunca ficaremos satisfeitos por eles não serem retratados com dignidade.

Já Bobby Kennedy é retratado como um santo na série. Bem, lá vou eu dizer que não era assim né? Sentio falta de uma abordagem polêmica sobre a família e que mostrasse os podres mesmo, o que eles fizeram enquanto estiveram na Casa Branca. No entanto, apesar do Bobby ser santo na série, a atuação de Barry Pipper vale muito a série. Muito mesmo. Há uma cena maravilhosa, onde fica subentendido o affair entre ele e Jackie Kennedy. A tensão da cena é sensacional, ainda que eles estejam falando por telefone. Bem, sobre a Dona Jackie O.... vocês sabem que nunca gostei muito dela, não? Por ser fã de Callas é difícil aceitar que ela tenha se casado com a Jackie. Posso não gostar, mas acho digno que ela seja representada com respeito na série, afinal foi uma das mulheres mais influentes do século XX. A Katie Holmes não consegue dar conta de interpretar uma personagem de peso como Jackie. A semelhança física não foi suficiente, o que vi foi uma Jackie apática e pouco influente na vida do país. A cena do assassinato, que esperei impacientemente, pode comprovar isso. Voa pedaço de cérebro pra tudo que é lado e ela aparece passiva! Quer dizer, não aparece isso na série, o que me incomodou. Cortaram direto para a cena do hospital!

Apesar das reclamações, é uma série legal. Legal para gente descobrir que o pai do Kennedy teve caso com a Glória Swanson, legal para refletir sobre o tema e ficar mais curiosa. Foi o que eu fiquei. Amanhã, vou na livraria torrar meu dinheiro atrás de livros sobre a vida atribulada dos Kennedy.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Amélie Nothomb et son acide sulfurique


Uma das coisas mais legais que aprender uma língua estrangeira pode trazer é a bagagem cultural. Em todas as aulas de francês, eu saía com vários nomes anotados no caderno, seja de filmes ou livros que meus professores comentavam e eu achava interessante. Voilà, um desses nomes era o de Amélie Nothomb. Minha professora falou algumas palavras dela: belga e em seus livros, os personagens sempre eram bem desenvolvidos psicologicamente. Por algum tempo, esse nome saiu da minha memória. No entanto, no dia em que fui comprar um presente para minha dinda na livraria, lá fui como sempre fuxicar a estante dos livros franceses. E lá em cima, estava Acide Sulfurique, romance de Amélie Nothomb. Ignorando a falência, comprei. Que bela surpresa. Uma ótima surpresa, eu diria.

Acide Sulfurique... bem, o título já é bem sugestivo. Não vou dizer o porquê, mas vocês descobrem isso no final do livro. O tema do livro lembra um pouco 1984 do Orwell, mas de uma maneira mais assustadora: existe um reality show chamado "Concentration", onde as pessoas estão confinadas numa espécie de campo de concentração moderno e são vigiados por câmeras todos os dias. Existem os kapos, que torturam os prisioneiros. Toda a semana, existe uma fila, que é formada com os condenados à morte da semana. Tudo televisionado. Confesso que demorei para sacar o que acontecia no livro, mas quando caiu a ficha não poderia ter sido menos surpreendente. A situação é tão bizarra, que chega a ser engraçada. No meio de toda essa confusão, existe tempo para que uma das kapos, Zdëna, se apaixone pela misteriosa Pannonique, uma das prisioneiras. Mas o legal é que este não é o tema da central da trama. Pelo contrário, ele é apenas um dos fios que puxa a história. Creio que a história se desenvolve em torno dessa fixação nossa de querer saber tudo da vida dos outros e de viver num mundo onde a privacidade não existe mais.

Isso vem de encontro ao BBB edição 1000 que estreia amanhã. Muitas passagens do livro me fizeram lembrar esse frenesi que as pessoas ficam nos meses de janeiro, fevereiro e março. É como se a gente adorasse meter a colher na vida dos outros para esquecer a mediocridade da nossa. E disso, a personagem Zdëna entende. Ela é desprezada por Pannonique o romance inteiro e por isso, desenvolve uma espécie de obsessão pela mesma. O desprezo vai corroendo Zdëna como ácido sulfúrico até chegar em níveis absurdos, em que ela desconta sua raiva surrando Pannonique. As duas personagens são opostos: Pannonique é quase uma deusa (assim os telespectadores e ela mesma se vê) e Zdëna carrega toda uma amargura inexplicada no romance.

Existe um momento no romance onde os produtores percebem que o público gosta de Pannonique e começam a bolar estratégias de como fazê-la permanecer no reality. Não sei, acredito que manipulem as edições de imagens nesses BBB's da vida. Se nós manipulamos e somos manipulados todos os dias porque as imagens não haveriam de ser? Eu pensei. pensei e pensei depois de ler o romance e cheguei a conclusão de que é isso aí, eu, você e todos adoram meter a colher na vida alheia. De maneiras diferentes. Pois se você acha que só porque não assiste BBB não goste de fuxicar a vida alheia está muito enganado. Ler biografias é um exemplo. Neste caso, eu me encaixo.

Não temos mais cura? Ah droga!

As minhas golden girls

Como vocês sabem, eu não sou uma pessoa chegada em seriados. Sempre começo, nunca termino. Damages me fez perder a paciência, eu estou na terceira temporada com a sensação de estar assistindo a primeira, os acontecimentos parecem repetir, mas as pessoas não. Enfim, aí fui para os lados de Hot In Cleveland, que é sitcom, e descobri que eu também podia gostar de seriados como pessoas normais. Mas o vício em HIC (abreviando para não ter que escrever de novo, preguiça feelings) não bastou, precisava ver Betty White mais vezes e mais mais mais mais. Eis que lembrei de The Golden Girls, uma série que eu assisti alguns episódios em hotéis durante minhas viagens aos EUA.

Golden Girls é o tipo de sitcom que em que tudo é bom. Digo, o roteiro, as atuações, os cenários. Por enquanto, nada me desagradou. Gosto muito quando um tema muito simplório, neste caso o das quatro senhoras vivendo juntas e dividindo problemas, é transformado em algo sensacional, divertido, leve, engraçado e que marcaria uma geração inteira até hoje. Se não tivesse marcado, não teriamos uma página dedicada a elas no facebook, não é? 

A mania de tradutora de comparar coisas permanece, então, tive que comparar Betty White de Golden com HIC. Não cheguei a nenhuma conclusão, se amo mais Elka ou Rose (ambas personagens de White). Afinal, são momentos tão diferentes. Betty como está nos seus 90 anos (para para parabéns aliás), eu a vejo interpretando o papel que Sophia (a mãe da Dorothy em Golden Girls) interpretava: o da velhinha desbocada. Já Rose é uma mulher pura demais em comparação com suas amigas, chegando a render situações hilárias como:

Blanche: (...) E ele ainda tem interesse! (em sexo, ficou subtendido para todas presentes na cena)
Rose: Em que?
Dorothy: Blanche, se você não entendeu, é porque isso não importa mais.

Para mim é muito difícil rir com séries que são supostamente comédia. Minha mãe me odeia porque eu não gosto de Glee. Provavelmente, vocês vão detestar também. Acontece que quando a pessoa cresce com A Feiticeira e Jeanne é um gênio é difícil se adaptar a qualquer série de riso fácil. Entretanto, Golden Girls foi um sitcom de riso fácil pelo qual me apaixonei perdidamente. E por que? Bem, como eu disse lá em cima quando tudo funciona de uma maneira perfeita, quando as atrizes se dão bem, o roteiro é bem escrito, as personagens e suas características bem desenvolvidas é assim: un coup de foudre. Apesar de adorar Rose, tenho meus momentos em que amo Dorothy, Blanche ou Sophia. É isso que me faz parecer que Golden Girls é simplesmente perfeito.

PS: eu vi um box com todas as temporadas para vender nos EUA. Uma bagatela, é claro. Mas como escolhi a vida árdua de fã da Bette Davis, eu já tinha gasto todo meu dinheiro comprando um box lindo, divino com seis filmes. Como diria Joy Scroggs: OH GOD, MY LIFE!


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Grey Gardens

Não adianta.  Os filmes depressivos me perseguem PRA VIDA. Toda vez que penso pegar um filme "engraçado", ele também precisa vir recheado de reflexões sobre a vida, tudo que ando querendo parar de pensar, principalmente porque o fim de ano está batendo na porta. Enfim, Grey Gardens veio parar nas minhas mãos através de minha dinda (falarei mais dela nos próximos posts), que tinha me dito que estava curiosa para ver, já que se tratava da história dos parentes da Jackie O. Infelizmente, como a curiosidade matou o gato e eu, aluguei para ver, sozinha. Não me lembro até hoje do último filme que me fez chorar de verdade nesse ano. Mas Grey Gardens conseguiu a façanha de me comover em várias cenas. Em se tratando de cinema, é engraçado mas, eu não me comovo facilmente. Lembro que assistimos O carteiro e o poeta numa cadeira do semestre passado e quando a luz acendeu, todas minhas amigas choravam, menos eu. Acho que não vi catarse naquela história, logo não chorei. Grey Gardens, creio, independente de ter catarse ou não nos comove do começo ao fim.

Na capa do filme, lembro que dizia "Entre no fabuloso mundo das parentes de Jackie O."Algo assim. Deveria estar escrito em letras garrafais: UM MUNDO TRISTE E NOSTÁLGICO DA PORRA. (oi chilique). Quando a gente acha que o filme vai mostrar as maravilhas dos Bouviers, somos levados ao ambiente melancólico de Grey Gardens, a casa de verão dos Bouviers, praticamente carcomida pelo tempo. O filme é baseado no documentário homônimo de mesmo nome, sobre a tia e a prima de Jackie, que no ano do mesmo, 1973, estavam sendo ameaçadas de despejo por causa das condições em que a casa estava. Na verdade, o fio condutor e mais importante para mim, é a relação entre Little Edie (Drew Barrymore) e Big Edie (Jessica Lange). É claro que lembrei muito da minha relação com minha mãe. Acho que para quem foi criado por sua mãe, naquele espírito de companherismo etc e tal, Grey Gardens é quase um soco no estômago. O filme não apenas trata da velhice de mãe e filha, mas também as mágoas que lhes rodeiam e com o passar dos anos, abrandam. Elas continuam ali apesar do tempo elevar tudo em um patamar aceitável. Uma cena que me comoveu muito é quando o pessoal da vigilância sanitária chega em Grey Gardens e a Big Edie está apavorada e gritando nos braços da filha. É muito difícil sofrer toda essa catarse de novo, dessa forma fria e até mesmo cruel que foi assistir Grey Gardens. Acredito que todos se veem na pele da Drew em algum momento, isto é, naquele medo imenso de deixar o passado para trás (representado pela mãe) e seguir em frente, por um caminho que ninguém sabe se será bom ou ruim. A Little Edie ficou. Eu condenei. Depois, percebi que não era bem assim. Lembrei de uma frase do Kennedy que dizia algo assim: o certo é a escolha menos pior. É assim. A gente escolhe e tem o direito de regrettar (oi verbos franceses) para o resto da vida. É o mínimo direito que podem nos dar, já que muitas vezes não tem como voltar atrás. Foi como Little Edie: os anos se passaram e sua posição tornou-se cômoda. Prendemo-nos dentro de nós mesmos, nas próprias armadilhas que montamos.

O que ficou de Grey Gardens foi uma sensação do passado voltando com força, como se minhas escolhas estivessem lado a lado. Regrettar é a solução possível. Falando em mães, eu só posso agradecer a minha por ter me dado o mesmo nome dessa atriz maravilhosa que é a Jessica Lange. Ela se apaixonou por ela em King Kong e resolveu e dar o nome... As relações com o cinema começando desde a formação do feto.