"Margo, eu vivi no teatro como um monge vive na sua fé; esperando o momento da revelação. Você foi um..." Esta frase do personagem de George Sanders em A Malvada pode resumir o meu sentimento por Mademoiselle, filme de Tony Richardson. Vejo um monte de filmes, de vez em quando um atrás do outro. Mas aquele aperto no coração, sentir o estômago ir à boca... isso acontece pouco. Após o término de Mademoiselle, quer dizer, antes eu já estava mandando uma mensagem para um amigo, do tipo: VOCÊ PRECISA VER ESSE FILME! Por isso, não posso esperar um minuto a mais para escrever minhas impressões sobre ele.
Retomando a metáfora do monge, eu não esperava que nenhum filme da Jeanne Moreau pudesse ser tão bom como Os Amantes. Não, nenhum poderia ser tão legal por que não tinha a cena de amor ao som de Brahms, Jeanne de Pierre Cardin e aquela história à la Mme Bovary do século XX. Ok, é a Moreau, ela faz filmes maravilhosos, até agora não vi nenhum ruim. Assisti recentemente La baie des anges e gostei muito. Muito mesmo. Acontece que Mademoiselle conseguiu me levar pra dentro da tela de uma maneira que poucos filmes conseguiram (oi, eu estou me repetindo). A personagem jogadora compulsiva cassineira de La Baie é um nada perto da Mademoiselle do filme homônimo. A Mme Bovary de Os Amantes igualmente. Por mais que elas tenham personalidades similares, a Mademoiselle ganha pela intensidade como a Jeanne consegue refletir a personagem perturbada da professora. MAS vamos pelo começo, né. Afinal, nada disso faz sentido se eu não falar como eu cheguei até Mademoiselle.
Estava relendo um livro sobre a Marilyn... e não fazia sentido lê-lo se eu passava a maior parte do tempo, baixando filmes da Jeanne. Larguei Marilyn pela segunda vez e retomei a biografia da Jeanne. Coincidência ou não, eu parei exatamente na parte onde o autor fala sobre La baie. Avancei alguns anos, passando pelo filme com a B.B (Viva Maria! que está aqui no computador pronto para ser visto) até chegar em 1966, mais precisamente. Comecei a ler sobre um filme chamado Mademoiselle, de um diretor chamado Tony Richardson. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o fato do papel ter sido escolhido pela Jeanne. O diretor, basicamente, largou a escolha da história nas suas mãos, devido ao fato de querer muito trabalhar com essa linda. Ela sugeriu um roteiro do Jean Genet, poeta francês e seu amigo. O diretor aceitou, mas acho que ele sabia que Genet e merda são palavras que rimam. Claro que deu merda, foi mal recebido no festival de Cannes, acusado de grosseria etc. Na época, é BEM compreensível que fosse tachado de "grosseiro". Mademoiselle é o tipo de filme que ganharia fama muitos anos depois de ter sido feito, pelo teor das cenas, consideradas fortes para a época.
O filme conta a história de uma professora (Moreau), que possui a maldade na alma. Simplesmente. A professora é má porque não é do bem e não adianta procurar razões patológicas para seu ódio pelo mundo. Ela o odeia, tout simplement. Ela é frustrada em todos os âmbitos da vida, principalmente o sexual. Quando ela conhece o lenhador italiano (UM COLÍRIO, MINHA GENTE), ela se sente tremendamente atraída por ele. Nesse quesito, a atuação de Jeanne consegue ser esplêndida; cheia de olhares lascívio, que temos a impressão de que a mulher está em chamas.O lenhador tem um filho, que frequenta a escola onde a professora dá aula. O mórbido do filme começa exatamente aí: Jeanne tortura a criança, como forma de sublimar o desejo pelo lenhador. Ela o tortura tanto, que chega um momento em que Bruno (o filho do lenhador) torna-se igual a professora: cheio de maldade no coração. O filme vai andando, numa tensão absurda, onde a gente torce para que a Jeanne pegue logo esse lenhador e arda em chamas na tela (que poético não? NOT). As cenas que aparecem antes do momento clímax do filme também realçam essa tensão sexual. A primeira delas, em que Jeanne observa o lenhador dormir atrás da árvore e passa a língua na boca. Aqui em casa, eu dei um berro alto. De todos os filmes franceses que vi dessa época, nenhum deles explora tanto esse lado animalesco do ser humano como Mademoiselle. Podemos ver o suor escorrendo do lenhador e suas calças levemente abertas, provocando um frisson na professora. Aquele homem realça todo o lado animal da profesora, isso é óbvio para nós depois de assistirmos à cena. A segunda cena: a da cobra. A cena MAIS erótica do cinema francês de todos os tempos. A professora vai passear na floresta e encontra o lenhador. Eles se olham por alguns segundos. O olhar dela vai percorrendo o corpo do lenhador até parar na barriga dele. Parece que ele estava com lombrigas, algo assim. Mas, de repente, ele tira uma COBRA debaixo da camisa. Fala que ela é mansa e pega a mão da Jeanne e faz com que ela acaricie a tal da cobra. MEU DEUS. A maneira como eles se olham e a mensagem subliminar da cobra são coisas que só poderiam sair da cabeça do Genet. SENSACIONAL. Eu cheguei a me arrepiar.
É claro que a cena em que eles finalmente transam é de longe a melhor do filme. Não por transarem. Quer dizer, não é uma simples transa e tchau. O lenhador desperta o lado animalesco da professora e durante os próximos 15 minutos, é visível isso. O lenhador a trata como um animal, como uma cadela. Existe uma cena até mesmo onde a Jeanne late e o lambe. Além disso, ele cospe nela também. Tudo isso na maior sensualidade, no meio do mato. Bem, é claro que o filme não acabaria assim. Me seguro para não contar o final para vocês, mas o que se pode dizer? Muito bem feito, bem filmado. A Jeanne simplesmente nos faz precisar de uma ducha fria depois de assistir ao filme. Posso dizer que de todos os filmes que vi com ela até agora, esse é o melhor.
Fãs do Haneke, vocês vão adorar esse filme. Ele me lembrou muito "A professora de piano".
O filme conta a história de uma professora (Moreau), que possui a maldade na alma. Simplesmente. A professora é má porque não é do bem e não adianta procurar razões patológicas para seu ódio pelo mundo. Ela o odeia, tout simplement. Ela é frustrada em todos os âmbitos da vida, principalmente o sexual. Quando ela conhece o lenhador italiano (UM COLÍRIO, MINHA GENTE), ela se sente tremendamente atraída por ele. Nesse quesito, a atuação de Jeanne consegue ser esplêndida; cheia de olhares lascívio, que temos a impressão de que a mulher está em chamas.O lenhador tem um filho, que frequenta a escola onde a professora dá aula. O mórbido do filme começa exatamente aí: Jeanne tortura a criança, como forma de sublimar o desejo pelo lenhador. Ela o tortura tanto, que chega um momento em que Bruno (o filho do lenhador) torna-se igual a professora: cheio de maldade no coração. O filme vai andando, numa tensão absurda, onde a gente torce para que a Jeanne pegue logo esse lenhador e arda em chamas na tela (que poético não? NOT). As cenas que aparecem antes do momento clímax do filme também realçam essa tensão sexual. A primeira delas, em que Jeanne observa o lenhador dormir atrás da árvore e passa a língua na boca. Aqui em casa, eu dei um berro alto. De todos os filmes franceses que vi dessa época, nenhum deles explora tanto esse lado animalesco do ser humano como Mademoiselle. Podemos ver o suor escorrendo do lenhador e suas calças levemente abertas, provocando um frisson na professora. Aquele homem realça todo o lado animal da profesora, isso é óbvio para nós depois de assistirmos à cena. A segunda cena: a da cobra. A cena MAIS erótica do cinema francês de todos os tempos. A professora vai passear na floresta e encontra o lenhador. Eles se olham por alguns segundos. O olhar dela vai percorrendo o corpo do lenhador até parar na barriga dele. Parece que ele estava com lombrigas, algo assim. Mas, de repente, ele tira uma COBRA debaixo da camisa. Fala que ela é mansa e pega a mão da Jeanne e faz com que ela acaricie a tal da cobra. MEU DEUS. A maneira como eles se olham e a mensagem subliminar da cobra são coisas que só poderiam sair da cabeça do Genet. SENSACIONAL. Eu cheguei a me arrepiar.
É claro que a cena em que eles finalmente transam é de longe a melhor do filme. Não por transarem. Quer dizer, não é uma simples transa e tchau. O lenhador desperta o lado animalesco da professora e durante os próximos 15 minutos, é visível isso. O lenhador a trata como um animal, como uma cadela. Existe uma cena até mesmo onde a Jeanne late e o lambe. Além disso, ele cospe nela também. Tudo isso na maior sensualidade, no meio do mato. Bem, é claro que o filme não acabaria assim. Me seguro para não contar o final para vocês, mas o que se pode dizer? Muito bem feito, bem filmado. A Jeanne simplesmente nos faz precisar de uma ducha fria depois de assistir ao filme. Posso dizer que de todos os filmes que vi com ela até agora, esse é o melhor.
Fãs do Haneke, vocês vão adorar esse filme. Ele me lembrou muito "A professora de piano".




